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Com o Zé em Harvard – Emoção, Cognição e Fé

Por: José Roberto Marques | Blog | 07 de maio de 2019

“Ser de Luz! Protagonizei um dos momentos mais importantes da minha carreira e da minha história. Um sonho que idealizei há 10 anos e foi materializado. Ministrei um Workshop na Brazil Conference em Harvard e você poderá acompanhar cada detalhe sobre os assuntos que compartilhei em artigos exclusivos aqui no meu blog!”


Seres humanos são criaturas inacreditavelmente complexas. Temos à nossa disposição, em nós mesmos, uma gama muito grande de ferramentas. Olhe, por exemplo, para as suas mãos: para que elas servem? Você é capaz de responder a essa pergunta satisfatoriamente? Não seria exagero dizer que seriam necessárias muitas páginas para podermos enumerar aqui todas as funções que conseguimos nos lembrar para elas.

As mãos são um exemplo; podemos fazer o mesmo exercício pensando nas outras partes do nosso corpo, chegando a uma conclusão parecida. Nossa plataforma biológica tem inúmeros propósitos e, no mundo natural, conseguimos fazer inúmeras coisas relativamente bem: somos bons nadadores e escaladores, miramos muito bem, corremos com boa desenvoltura e por bastante tempo, somos bons de salto e de equilíbrio… Claro que tudo isso exige alguma prática, mas nosso corpo é, em geral, equipado para tudo isso.

Se adicionarmos a essa equação o nosso cérebro, com esse córtex extremamente desenvolvido, fica difícil entender o tamanho da potencialidade de um ser humano. Você é capaz de dizer quantas funcionalidades tem o seu cérebro? Nossa capacidade de abstração, predominantemente operada pelo córtex, faz com que sejamos capazes de pensar em coisas que, embora não existam propriamente no mundo real, parecem mais reais que a própria realidade, como os números. A manipulação de abstrações em suas formas mais puras nos dá um poder e uma capacidade de predizer resultados com uma precisão difícil de se ver quando se trata de manipulação de coisas concretas.

No meio do caminho entre as ações físicas concretas e a capacidade mais elevada de abstração, temos um sistema que muitas vezes é relegado e deixado de lado. Há pessoas que tratam as emoções como se fossem apenas empecilhos entre o planejamento abstrato e a ação concreta, a razão de muitos fracassos, manifestações nossas que precisamos superar para que possamos alinhar pensamento e ação.

É preciso ter cuidado com esse tipo de raciocínio. Não é saudável que alguém pense, com seu córtex altamente desenvolvido, que seria melhor dispensar-se o sistema emocional e agir com base na racionalidade pura. Em primeiro lugar, o que garante que o que pensamos está certo vai funcionar ou está certo? Para as pessoas de pensamento mais cientificamente orientado, caberia reconhecer que o sistema límbico, a parte do cérebro predominante no que diz respeito às emoções, é uma parte mais “experiente” do cérebro, por assim dizer, que foi posta à prova pela natureza, pelo ambiente mutável que levou à extinção sabe-se lá quantos milhões de espécies e formas de vida, e prevaleceu. Ela está aqui porque foi capaz de levar as espécies que a desenvolveram a sobreviverem e a perdurarem ao longo dos milênios.

Não há dúvidas de que a cognição é poderosíssima: a partir dela, pudemos desenvolver ferramentas que nos dão habilidades ainda mais notáveis; podemos voar, por exemplo. Podemos nos comunicar com outros de nossa espécie do outro lado do mundo instantaneamente — ou quase. Mas nosso cérebro não é todo córtex; sabemos que este se desenvolveu a partir de estruturas mais antigas, como aquelas ligadas ao sistema emocional, e cumpre ao bom raciocínio não se apaixonar pelas próprias criações, não se achar superior aos seus ancestrais a ponto de considerá-los obsoletos; é preciso ter reconhecimento em relação àqueles que lhe possibilitaram a existência.

Da mesma maneira, é bom lembrar que orientar-se puramente pelo sistema emocional não é adequado à vida em sociedade como conhecemos. Tentar dispensar o raciocínio nos deixaria à mercê de excesso de impulsividade ou de medo.

Emoções são formas não articuladas de conhecer. Muito antes de sabermos que um alimento está repleto de micro-organismos que certamente nos causarão doenças, rejeitávamos esse alimento pelo sentimento de nojo que nos causava o aspecto ou o cheiro dele; se utilizássemos apenas a racionalidade para interagir com o mundo, é provável que nem sequer existisse música.

Seria possível integrar essas duas ferramentas fantásticas, de maneira que elas trabalhem por um mesmo fim? Seria possível diminuir o conflito tão comum entre aquilo que eu sei que preciso fazer e aquilo que eu sinto vontade fazer?

Nós acreditamos que sim. E podemos chamar a chave para conseguir fazer isso de fé, mas você pode trocar essa palavra por propósito, por busca de significado ou outra expressão de sua preferência. O que estamos chamando neste texto de fé nada mais é do que a atitude de buscar um propósito, de ter uma grande e maravilhosa meta que verdadeiramente faça sentido para você.

Chamamos de fé porque é um mecanismo de orientação, que vai afinar suas percepções, suas emoções e seu raciocínio em uma mesma direção. Se essa direção verdadeiramente faz sentido para você, ela terá passado pela aprovação do poderoso raciocínio do córtex e da ancestral sabedoria do sistema límbico, promovendo uma integração entre cognição e emoção.

A busca por um propósito passa pelo autoconhecimento: examinar, com sinceridade, os próprios raciocínios, as próprias conclusões, bem como escutar com humildade, cautela e atenção as vozes internas que chamamos de emoções; a fé, da maneira como aqui a entendemos, não só produz uma integração entre razão e emoção, como também é fruto dessa união.

Nos cabe fazer o máximo para reconhecer em nós nossas ferramentas, bem como suas potencialidades, para o bem e para o mal; em todos os casos, uma constante: o equilíbrio é o melhor caminho. Entre yin e yang, hemisfério direito e esquerdo, emoção e cognição, abstrato e concreto, escolha valer-se de ambos, já que de ambos você é composto. O mundo é muito grande, complicado e cheio de oportunidades para dispensarmos ferramentas que a natureza nos deu para conhecê-lo.

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