Conhecendo o Self e a Teoria Junguiana

Por: José Roberto Marques | Blog | 05 de dezembro de 2016
Jung sentado em sua poltrona fumando seu cachimbo e pensando em suas teorias sobre o Self

Ehmi Nanthis’s/Shutterstock Conhecer o Self segundo a Teoria Junguiana é essencial para compreender melhor a mente humana

Querido amigo leitor, pode ser que você seja um coach, ou já tenha me visto em algum vídeo, em alguma palestra ou mesmo já tenha lido algum dos meus livros. Se sim, você com certeza já me ouviu falar sobre self. Tenho especial predileção pela teoria junguiana. Desde minhas primeiras formações tenho trabalhado o pensamento de Jung.

Muitos o leem, mas poucos o compreendem ou conseguem fazer as conexões necessárias para compreendê-lo. Durante cerca de 50 anos, Carl Gustav Jung desenvolveu suas teorias. Elas são fruto da observação de vários povos. Suas viagens a lugares como Quênia, Tunísia, Saara, Novo México, Índia lhe proporcionaram encontrar pontos de conexão, o que lhe possibilitaram formular a teoria do inconsciente coletivo, distinguindo-o do inconsciente pessoal.

Essa teoria que hoje compõe a ciência psicanalítica, base ouse em primeira instância na mitologia, história das culturas, relatos de viagens, além das suas próprias fantasias e sonhos de infância. O principal trabalho de Jung foi o conceito de “arquétipo”. Estes são formas imateriais nas quais os fenômenos mentais tendem a se moldar, primeiramente no sonho, em seguida, observamos os arquétipos nas construções das personalidades.

Eles são universais, primordiais, parte desse inconsciente coletivo que se torna o eixo nuclear de todo seu estudo. Podemos encontrar o self ou si mesmo como um dos arquétipos de Jung. Ele é o gerador de todo potencial energético que sustenta a psique humana. Logo, ele é o organizador dos processos psíquicos, trabalhando em prol do equilíbrio de todos os aspectos do inconsciente.

Definições do Self segundo Jung

Quando estamos harmonicamente integrados ao nosso self, em situações normais que não incluem estados extremos de sensibilidades como o luto, gozamos de unicidade e estabilidade da nossa personalidade. Há uma conceituação corriqueira de Jung para self, presente em vários trabalhos de pesquisadores do tema. Nessa definição,  Carl Jung diz que: “O si mesmo representa o objetivo do homem inteiro, a saber, a realização de sua totalidade e de sua individualidade, com ou contra sua vontade”. “A dinâmica desse processo é o instinto, que vigia para que tudo o que pertence a uma vida individual figure ali, exatamente, com ou sem a concordância do sujeito, quer tenha consciência do que acontece, quer não”.

Você é feliz?

A essência do si-mesmo se manifesta no ser humano, principalmente, pela via dos instintos, uma vez que ele está ligado ao inalcançável, ao inconsciente. É aquele momento que você com certeza já viveu, quando, após um momento de crise de vida, de um obstáculo qualquer, nos ocorre uma espécie de iluminação.

Lemos um livro, assistimos a uma palestra, vamos a uma galeria a uma sessão de cinema ou simplesmente contemplamos a natureza e de repente não nos vemos mais da mesma maneira. Nem a nós, nem aos outros, nem ao mundo à nossa volta. Algo nos desperta. Eles ocorrem nos sonhos ou em outros eventos simbólicos na forma de figuras transcendentais, ilustres personalidades, a “voz” de Deus, ou figuras geométricas, como as mandalas, por exemplo.

O inconsciente, se prestarmos atenção, não será tão inconsciente assim. O sujeito do inconsciente é produzido nesta operação de recalque, mas emerge em diversas situações, como nos sonhos, ou também em nossos devaneios diários. Os conteúdos inconscientes não são “ruins” ou negativos para o indivíduo. Eles são reprimidos pela cultura, pelos valores, pelos sentimentos, comportamentos e emoções que nos são tolhidas desde a mais tenra infância.

Você se conhece bem?

Não seria incorreto dizermos, então – trocando em miúdos – que a máxima “nem a gente mesmo se conhece” vem da teoria junguiana. Nós não somos apenas aquilo que sabemos sobre nós, mas também aquilo que desconhecemos de nós, somos aquilo que está à luz e também aquilo que está à sombra. Contudo, para Jung, o inconsciente não é algo esquecido, como um porão de móveis velhos. Embora seja composto por conteúdos repreendidos, o inconsciente tem um papel ativo na formação da nossa personalidade e na nossa história.

O nosso self 2 é prova de como o inconsciente pode trabalhar a nosso favor. O ego em Jung é o centro da consciência, enquanto o self é o centro da psique. O ego dirige nossa vida consciente e dá uma percepção de nós, nosso corpo, nossa existência, logo, ele é o maior dos arquétipos da nossa personalidade por ser a parte superficial.

É nesse sentido que nosso trabalho é mais profundo do que se imagina, ele está no centro da psique, no profundo, na sombra, no escondido, no self. Só enxergamos aquilo que está na superfície e achamos que o que está escondido deve permanecer como está. Conhecer-nos exige que saiamos da névoa, nos enxergando como indivíduos únicos. O consciente e o inconsciente passam a ser os conceitos mais preciosos e importantes. Quando vamos tomar uma decisão qualquer, que exige de nós muita cautela, tendemos a evocar nosso arquétipo do sábio, refletindo profundamente antes de nos decidirmos.

Mas mesmo que o primeiro passo no caminho para uma decisão importante seja o resultado de reflexão consciente, aqui, como em toda parte, a ideia espontânea – o palpite ou intuição – desempenha um papel fundamental. Em outras palavras, o inconsciente colabora muito e faz muitas vezes contribuições decisivas.

Tenho certeza de que você já se pegou traindo seu raciocínio lógico e assumindo o risco de uma decisão meramente por “sentir” que de outra forma seria melhor. Portanto, não é apenas o esforço consciente sozinho o responsável pelo resultado das nossas ações, há algo em nós que desconhecemos, mas que atua diretamente na nossa vida.

Esse algo também recebe muitos nomes. Aqui só estamos chamando de inconsciente por estarmos partindo de Jung, mas poderíamos chamá-lo de tantas formas quantas fossem as possibilidades culturais, sociais e científicas de entendermos esse “algo” que ultrapassa o racional, a cognição, o concreto, o mensurável. Eu costumo chamar de self 2.

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