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Linguagem e Transformação da Realidade

Por: José Roberto Marques | Blog | 12 de março de 2019

Sempre fiquei me perguntando o que eu mais admirava nas pessoas que eu admirava. Quando vemos um grande líder na televisão, ou um político, cientista, ou mesmo algum artista que ganha nosso carinho, temos, no fundo, a pretensão de nos parecermos com eles. Não em tudo, mas alguma parte.

Com o tempo, percebi que entre várias características que eu entendo serem importantes para qualquer pessoa que quer se destacar, a que mais me deixava hipnotizado era a capacidade que aqueles “caras” tinham de se conectar com as pessoas por meio da fala. Você com certeza já se viu horas diante de alguém que estava, apenas, falando. E você completamente envolvido por aquele discurso que mexeu com você em vários níveis.

Era isso. Era o poder da linguagem que mais me impressionava e ainda impressiona nas pessoas. Fui então observando ao meu redor e então constatei que tudo a nossa volta é linguagem. Tudo envolve comunicação, tudo envolve língua e sentido.

Você acorda e, pelo som de um aparelho, se desperta. Através desse som você sabe exatamente que horas são, o que deve fazer em seguida, e quanto tempo tem até a próxima atividade. Depois encontram as pessoas da sua casa e observa seus rostos para saber se dormiram bem. E não adianta mentir, porque você conseguirá saber, pela forma como está cada expressão, se estão dizendo a verdade.

Você lê o jornal, ou liga a TV no noticiário da manhã. Pega o trânsito e tira suas conclusões sobre o tempo, o movimento, as pessoas… tudo se comunica conosco. De tudo conseguimos compreender suas “linguagens” próprias.

Você chega ao trabalho e novas informações, senta para conversar com os colegas e ouve atentamente (ou não!) o que aconteceu com cada um no final de semana. Alguns te tocam mais profundamente,outros apenas te fazem cumprir o papel do bom colega de sala – aquele que não quer ser chato.

Você pode observar as roupas das pessoas que trabalham ou estudam com você, perceber facilmente quem saiu de casa apressado, ou não dormiu em casa (e repetiu a mesma roupa). Quem está mais sorridente ou com cara de poucos amigos. A movimentação no ambiente, as cores que mais aparecem… tudo ao seu redor se comunica com você. Você consegue ler tudo. Estamos lendo os gestos, os desenhos, as cores, as letras, o tempo, a natureza. Tudo é leitura, tudo é linguagem.

Isso me impressiona e me faz pensar que compreender e dominar diversas formas de linguagem é ter acesso a um poder impressionante. Observe que quando assistimos na televisão ou lemos em alguma revista que determinado alimento faz mal à saúde, imediatamente mudamos nosso comportamento com relação àquele alimento. Não sabemos, não fomos ao laboratório fazer a pesquisa, mas alguém que reconhecemos como especialista nessa área disse, e isso por si só já é suficiente. Os mais religiosos têm toda sua forma de pensar e agir norteada pelas palavras bíblicas, ou pela interpretação de uma pessoa – pastor, padre, ou qualquer outra denominação – dessas mesmas palavras. Ou apenas choramos quando toca uma bela música cuja letra ou melodia aciona uma emoção latente dentro de nós.

Os exemplos são inúmeros, mas basta compreendermos que o homem, ao falar, transforma o outro, e por sua vez, é também transformado pelas consequências de suas palavras. Quando dizemos que a palavra tem poder estamos falando dessa forma transformadora pela qual as palavras, dentro de um contexto e ditas por um sujeito legítimo para cada discurso, podem criar e modificar realidades diversas. Bakhtin, um filósofo da linguagem, diz que o que dizemos não são palavras, ou frases, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis. O que ele quer dizer é que a palavra, ao ser dita, enunciada, verbalizada, ela está carregada de um conteúdo vivencial. Dessa forma, o que dizemos está carregado de conteúdo subjetivo, e diz muito mais que apenas o sentido dicionarizado de cada palavra.

A linguagem tem uma dimensão individual, tanto na sua execução como na forma com que cada sujeito seleciona as palavras e constrói seus textos mentais, orais, escritos, visuais. Mas essa mesma linguagem é também social pois aprendemos a usar nossa língua materna a partir de um coletivo. Aprendemos o uso de acordo com os demais que estão à nossa volta. Quando aprendemos nossa língua, quando criança, estamos inseridos num contexto histórico e também social. Veja que a linguagem muda conforme muda a sociedade e suas necessidades comunicativas.

Quando crescemos e passamos a transitar por outros espaços vamos compreendendo que agir em sociedade exige entender outros universos de linguagens além daquele que nos foi apresentado quando crianças. Estamos então num universo de linguagem plural, de significados múltiplos, em situações em que uma palavra que aprendemos pode ter, para o outro, não só um sentido diferente como completamente oposto. Cada palavra é “um microcosmo da consciência humana”.

Nessa linha de raciocínio que estou traçando com você, quero levá-lo a compreender que a linguagem é fundamental para o desenvolvimento do Self, da consciência de Si e do mundo. A tríade pensamento-linguagem-ação é a unidade básica da existência humana. Pensamos, falamos e agimos sobre nós mesmos, os outros, e o meio em que vivemos, e assim construímos a nossa realidade.

Essa relação deixa bastante clara a ligação entre as palavras e as coisas. As coisas são o que dizemos sobre elas, pois isso reflete nosso pensamento sobre tal. É assim que muitas pessoas dizem não gostar de um alimento quando nunca o experimentaram na vida. Esse exemplo reflete tanto o modo como eu mesmo posso falar e criar uma verdade para mim quanto o modo como somos influenciados pelo discurso alheio, pois posso não gostar de algo porque ouço dizerem que esse algo é ruim e tomo essa palavra como verdade.

Não há verdades absolutas. Toda verdade é construída linguisticamente. Falar sobre algo é atribuir significados que serão assumidos por você mesmo, por um grupo, ou por uma sociedade inteira. É necessário sempre pensar em como eu me defino, que características me atribuo, escrever, falar em voz alta para que a palavra enunciada crie essa realidade de uma forma palpável. É um exercício poderoso de autoconhecimento e de reconhecimento do Self.

 

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