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A Dinâmica da Personalidade – Função Dominante

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Pogonici/Shutterstock Sempre temos uma nuance de nossa personalidade que se destaca entre as demais

A análise das quatro funções no decorrer do desenvolvimento psíquico, levou Jung (1971 a) a constatar que as funções diferenciam-se entre si tornando-se função dominante ou principal, enquanto a outra será desenvolvida de maneira menos intensa, tornando-se função auxiliar da primeira.

Os demais níveis de funções, ou seja, a terciária e inferior não serão desenvolvidas na consciência, mas sim no inconsciente. Jung alerta sobre o perigo da desigualdade profunda entre essas funções, podendo até causar certas perturbações, como afirma esta autora: “se uma função não é empregada… há o perigo de que escape de todo ao manejo consciente, tornando-se autônoma e mergulhando no inconsciente onde vá provocar ativação anormal.” Silveira (1988: 55).

Função Dominante

Para Carl Gustav Jung, entre as quatro funções psíquicas existem sempre uma preferencial, por ser usada com mais frequência, por este motivo, torna-se mais desenvolvida e diferenciada em relação às demais, tornando-se cada vez mais apta. A função dominante surge através do exercício do desenvolvimento de traços congênitos. Com o passar do tempo, ela se torna superior às outras, e isso significa que é mais desenvolvida em relação às demais, seu maior uso é o que determina o aspecto funcional do Tipo Psicológico.

Conceitualmente, a função dominante também pode ser denominada como função principal caracterizante do Tipo Psicológico de determinada pessoa, atribuindo a ele suas características psicológicas particulares. Cada um de nós utiliza preferencialmente sua função principal, com o objetivo de obter melhores resultados para viver com mais plenitude, conforme escreveu Jung:

“na luta pela existência e pela adaptação, cada qual emprega instintivamente sua função mais desenvolvida, que se torna, assim, o critério de seu hábito de reação …. Assim como o leão abate seu inimigo ou sua presa com a pata dianteira (e não com a cauda, como faz o crocodilo), também nosso hábito de reação se caracteriza normalmente por nossa força, isto é, pelo emprego de nossa função mais confiável e mais eficiente, o que não impede que às vezes, também possamos reagir utilizando nossa fraqueza específica. Tentaremos criar e procurar situações condizentes e evitar outras para, assim, fazermos experiências especificamente nossas e diferentes das dos outros”.Jung (1971a: 493)

Em algumas obras, como na de Sharp (1993), encontramos estudos que mostram como é quase impossível alguém desenvolver, simultaneamente, todas as suas funções psicológicas. O sucesso social é determinado pelo grau de exigência que obriga o indivíduo a aplicar-se, antes e acima de tudo, à diferenciação da função com a qual esta pessoa terá maior sucesso social. O autor afirma: “Muito frequentemente… um homem se identifica mais ou menos completamente com sua função mais favorecida e, portanto, mas desenvolvida. É isto o que dá origem aos vários tipos psicológicos”. (1993:73)

Outra autora, Marie-Louise Von Franz, fala sobre o desenvolvimento da função principal:

“Por volta da idade do Jardim da Infância, já podemos detectar o desenvolvimento da função principal, através da preferência por alguma ocupação ou pela forma de relacionamento da criança com os seus colegas. A unilateralidade vai aumentando com o desenvolvimento cronológico e o meio, por sua vez, colaborando para reforçá-la, verificando, portanto, o aumento do desenvolvimento da função superior e a lenta degeneração da inferior.” Von Franz (1990: 36)

A autora, ainda explica que existem casos em que a unilateralidade é reduzida. Exemplificou utilizando-se de casos em que as pessoas vivem em contextos extremos como camponeses, caçadores e povos primitivos. Ela aponta que estes indivíduos jamais sobreviveriam se não usassem quase todas as suas funções.

Função Secundária e a Função Terciária

O processo de desenvolvimento faz surgir outra função, denominada de função secundária ou auxiliar, distinta em essência da função principal e não necessariamente oposta a ela. Jung caracteriza a função secundária como sendo aquela que, no decorrer do processo de diferenciação, fica distanciada a um plano inferior e sua existência é útil para estar a serviço da função principal.

O processo auxiliar é de extrema importância para apoiar a função superior na dinâmica tipológica como um apoio à função superior, promovendo equilíbrio – e não igualdade – entre extroversão e introversão, do mesmo modo que promove, também, equilíbrio entre o julgamento e a percepção. O bom desenvolvimento do tipo exige que a função auxiliar suplemente a dinâmica processual para o equilíbrio que também deve existir entre a extroversão e a introversão.

“Para viverem felizes e efetivamente em ambos os mundos, as pessoas necessitam de um auxiliar equilibrado que tornará possível a adaptação em ambas às direções – o mundo à sua volta e seu próprio interior.” Myers & Myers (1997: 43)

A função terciária tem como característica principal ser uma função com desenvolvimento primitivo, no qual a importância reside na complementaridade da dinâmica (consciente/inconsciente) outrora atribuída aos quatro elementos da tipologia. A função terciária está na direção diretamente oposta à função auxiliar na escala de preferências.

Função Inferior

Em total oposição à função dominante, está a função inferior, como exemplo, podemos citar uma pessoa que possui a Intuição como função dominante terá necessariamente a Sensação como função inferior. Vale esclarecer que existem alguns aspectos que caracterizam a função inferior, como grande carga de emoção, suscetibilidade, tirania, acentuado grau de autonomia (por não estar subordinada à autoridade da consciência), concentração vital e, um campo de grande potencialidade.

Para Von Franz, “ A função inferior representa a parte desprezada da personalidade – ridícula, lenta e inadaptada – que constrói a conexão com o inconsciente e que retém, portanto, a chave secreta da totalidade inconsciente. Enfim, ela é a ponte para o inconsciente e sempre dirigida para o mundo simbólico… a função inferior faz a ponte para o inconsciente.” Von Franz (1990: 19)

Metaforicamente podemos, exemplificar, o comportamento da função inferior nos contos de fadas, nos casos em que geralmente o terceiro filho de um rei e a quarta figura do conjunto recebem tratamento diferenciado em relação ao primogênito, e aparentemente apresenta, de acordo os mitos, qualidades superficiais diferentes: ser mais jovem, apresentar comportamento um pouco retardado ou ainda ser tolo por completo.

À medida que a energia psíquica é dirigida em grande parte para a função principal, a função inferior torna-se cada vez mais primitiva e inicia um processo regressivo a ponto de tornar-se não compatível com a função psíquica principal, sobre essa ideia, Jung (1971a) esclarece que, geralmente a função dominante é consciente, menos diferenciada; a função inferior permanece nos domínios do inconsciente de forma bruta, primitiva e arcaica e pode aparecer repentinamente quando uma pessoa está sobre pressão ou doença:

“acontecimentos positivos ou negativos podem trazer à tona a função contrária inferior. Sobrevindo isso, manifesta-se a hipersensibilidade, sintoma da existência de uma inferioridade. Assim estabelecem-se as bases psicológicas da desunião e da incompreensão, não só entre duas pessoas, como também da cisão dentro de si mesmo… a natureza da função inferior é caraterizada pela autonomia; é independente, ela nos acomete, fascina e enleia, a ponto de deixarmos de ser donos de nós mesmos e não nos distinguirmos mais exatamente dos outros.” Jung (1971b: 50)

Precisamos ter clareza de que a função inferior existe e não cair no erro de anular tal função pelo fato dela não ocorrer no campo consciente de nossa mente, quando negligenciada ao extremo, pode interferir no funcionamento consciente.

Conceitualmente, a dinâmica psíquica baseia-se no equilíbrio de opostos, conforme afirma Jung. E ainda nos alerta de que a função inferior deve ser reconhecida, para não ser reprimida no inconsciente e surgir de forma danosa e destrutiva no consciente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_______. O homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1977.

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MYERS & Myers, P. Gifts Differing – Understanding Personality Type. Consulting Psychologists Press, 1980.

MYERS, I. Briggs & MYERS, Peter. Ser Humano é ser diferente. Tradução Eliana Rocha, São Paulo, Editora Gente. 1997.

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MYERS, I. & MYERS, P.. Introdução à Teoria dos Tipos Psicológicos; Tradução e edição da Coaching Psicologia Estratégica. São Paulo, 1997.

SHARP, D. Tipos de Personalidade. São Paulo, Editora Cultrix, 1990.

SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma – uma introdução. Editora Cultrix, São Paulo, 1998.

STERN, P.J. C.G. Jung – O profeta Atormentado. RJ, Editora Difel, 1977.

STEVENS, Antony. Jung: Vida e pensamento. Tradução Atílio Brunetta, Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.

VON FRANZ, M.L.& HILMAN, J. A Tipologia de Jung. São Paulo, Editora Cultrix, 1990.

ZACHARIAS, J.J.M.. Entendendo os Tipos Humanos – Paulus, Série Entendendo, 1995.

_____. Tipos Psicológicos Junguianos e Escolha Profissional – uma investigação com policiais militares da cidade de São Paulo. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia – USP, São Paulo,1994.

 

 

 

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