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As Relações Humanas com Base na Linguagem

Por: José Roberto Marques | Blog | 15 de março de 2019

Quando você vai à faculdade, entra em uma sala de aula, o que acontece em seguida? – uma pessoa fala sobre algo, outros escutam e refletem, ou leem algo e em seguida escrevem a respeito.

Quando você vai ao médico o que acontece? – ele faz questionamentos que você responde, ele lê imagens ou laudos escritos, explica um problema, depois você faz perguntas, ele responde. Depois te dá uma receita médica ou um encaminhamento qualquer.

Quando você vai às compras, o que acontece? – você olha vitrines com placas promocionais, enfeites, valores e tira suas conclusões de tudo. Depois entra em uma loja, visualmente percebe os produtos, chama um vendedor que te explica sobre ele, negocia valor e forma de pagamento, conversam um pouco sobre entrega e fecham a venda.

Percebe?

Nossa vida é feita de relações dialógicas. Não importa a forma, se escrita, verbal ou visual, estamos imersos no mundo da linguagem 100% do tempo. E então eu te pergunto: o que acontece em uma sessão de Coaching? É uma relação dialogal, onde o mais importante é conduzir a comunicação compreendendo todo o universo linguístico que envolve o ambiente.

Lembra quando lhe contei que tudo que mais admirava nos meus grandes exemplos de profissionais e homens era o domínio da linguagem? Sempre fiquei admirado em como o discurso dos grandes mexia comigo. Grandes personalidades são, em geral, grandes comunicadores. Mesmo que essa comunicação não seja para uma plateia com milhares de pessoas, ela deve ser desenvolvida, aprimorada, valorizada, almejada.

Seja o melhor comunicador que você possa ser, e você será o melhor coach entre todos. Para isso é preciso compreender que a linguagem produz um fio ininterrupto de significações. Essa produção de significados, ou de sentidos, está vinculada ao que chamamos de processo de comunicação, e ele vale não apenas para a comunicação verbal, mas para toda forma de produção de sentido pela linguagem, mesmo a visual, a espacial e gestual.

Quando eu estudei, na antiga escola primária, hoje o ensino fundamental, aprendi que a comunicação se faz a partir do seguinte esquema:

 

 

Perceba que nesse esquema clássico há um emissor (pessoa que fala), um receptor (pessoa que ouve, ou recebe a mensagem), uma mensagem que é transmitida de um a outro, um referente, ou seja, do que trata a mensagem, um canal utilizado para essa comunicação e um código, uma materialidade dessa mensagem, que pode ser a voz, a escrita, o gestual etc.

Algo te incomoda nesse esquema? Você aceita que a comunicação se dá nesse modelo?

Se você observar com mais cuidado verá que a seta, que indica a direção na qual segue a comunicação, tem apenas um sentido, ela apenas vai de um ponto a outro, do emissor para o receptor. Esse esquema desconsidera a participação ativa de ambas as partes. Poderíamos entender que nos modelos mais antigos de educação, e até mesmo nas igrejas, esse seria o mais próximo do real, afinal, os professores  e os sacerdotes são dotados de um saber que é depositado no outro por meio da linguagem. É o que Paulo Freire chamava de “educação bancária”, aquela em que um indivíduo dotado de saber deposita no outro todo o seu conhecimento, e esse outro, que antes se encontrava como uma “tábula rasa”, vazio de conhecimento, era passivamente beneficiado pelo ensino do “doutor”.

Contudo, mesmo que não haja uma resposta verbalizada, um feedback do outro sujeito que participa desse processo, conhecido no esquema acima como receptor, há, dentro dele, uma série de diálogos que ou aceitam, ou contestam, ou ruminam a fala proferida pelo “emissor”. De forma consciente, ou não, o “outro” da comunicação responde àquilo que lhe foi dito. Essa responsividade é a base das novas compreensões da comunicação.

Um importante estudioso da linguagem diz que “toda fala proferida está prenhe de resposta”. Toda vez que dizemos algo a alguém essa fala é respondida, mesmo que mentalmente. Ela gera insights, pensamentos diversos, contestações e, no futuro, mesmo que não seja diretamente para você, essa fala que foi ouvida será utilizada de alguma maneira, em novos enunciados, proposições, textos.

Constatando que há então uma participação ativa de ambas as partes envolvidas numa comunicação, os estudiosos da linguagem têm proposto um esquema de comunicação que se parece com o esboçado à seguir.

 

 

O que é importante enfatizar nesse esboço de esquema, e que o coach, especialmente quando tratamos de Self Coaching, deve se atentar, é a característica cíclica da comunicação. Em qualquer relação dialogal, a fala de um é sucedida pela fala do outro que, organiza mentalmente uma resposta, uma intervenção, antes mesmo que o outro termine de dizer algo. Todas as pessoas que participam de uma comunicação são participantes ativas, até mesmo porque, aquele que assume a palavra deve, obrigatoriamente, se preocupar com aquele que recebe a mensagem, com o outro.

O bom comunicador se preocupa com quem o ouve. É aquela clássica história de “quem é a culpa por uma falha na comunicação?” quando não entendo algo que você diz, quem é o responsável?

Eu respondo: ambos!

Aquele que diz deve, sim, se preocupar com o entendimento do outro. Aquele que diz algo sem se preocupar em como esse algo será recebido e entendido não está efetivamente interessado no sucesso da comunicação. É por esse motivo que tendemos a usar diversas variantes do português.

O português brasileiro, como língua natural, adquire variações que podem ser regionais, culturais, etárias (pelas faixas de idade), profissionais, variações de gênero (uma variação mais própria para a comunicação com mulheres, homens, homossexuais) enfim… há várias situações em que a língua sofre modificações no seu vocabulário, na sua prosódia (ritmo de fala), na sua morfologia (a composição das palavras) e principalmente fonológicas. Com o tempo, conforme vamos transitando por diversos eixos da vida cotidiana vamos nos apropriando de várias variantes da língua e, mais importante, aprendendo a usá-las de maneira mais adequada à cada situação.

Dessa forma, se um comunicador não se preocupa com o universo linguístico e cultural do seu interlocutor ele sim será responsável pelas falhas na comunicação. De outro lado, se o interlocutor não se atenta ao que está sendo dito, ou não se interessa pelo que está sendo dito, ele pode ser responsabilizado pelas mesmas falhas. Logo, se estamos falando de um processo que envolve mais de um lado, todos esses lados são responsáveis por fazer com que a relação dialógica seja capaz de produzir atitudes reais que visem a mudança de comportamento e de hábitos. Reflexões que façam sentido e que deem frutos.

Coach – numa sessão de Self Coaching, é necessário que sua comunicação esteja inteiramente voltada para o universo do seu coachee. Temos o hábito de tentar entender o outro a partir do nosso ponto de vista, e isso é extremamente nocivo.

O mais complexo da comunicação numa sessão de Self Coaching é a competência de usar todo seu conhecimento, mas compreendendo o universo do outro. Posso ilustrar isso com uma questão do dia a dia: quando encontramos alguém que tem uma crença diferente da nossa tendemos a “torcer o nariz”. Há pessoas que quando ouvem alguém contar sobre sua religião ou igreja e esta é substancialmente diferente, em termos de concepção do mundo ou de ritualística, vemos reações sempre preconceituosas, repletas de julgamento que partem do ponto de vista de quem ouve, falas do tipo: “Deus me livre, você acredita nisso?” ou “Isso é errado você tem que mudar de igreja, não tá certo” ou ainda: “Isso nem religião é, isso não é de Deus”.

Uso o exemplo da religião porque também sou teólogo e creio que esse exemplo é fácil de ser assimilado por vocês. De fato, é bastante complexo, por um momento que seja, abandonar nossas crenças, mas numa sessão de Coaching, quando o coachee está falando sobre   si, especialmente sobre sua subjetividade e aquilo que lhe constitui como ser humano, devemos não só suspender todo tipo de julgamento – talvez a regra mais importante do Coaching – mas buscar compreender que sentido aquilo faz a partir do ponto de vista do outro, do universo do outro, da realidade do outro e não da minha… eu sou apenas o ponto de intersecção entre o coachee, sua história, e as possibilidades de desvendar caminhos que modifiquem sua realidade.

Eu ouço, compreendo e interfiro não a partir de mim, mas a partir do meu interlocutor. Não fosse assim, o Coaching entraria numa linha doutrinária, em que as pessoas se submetem a um processo  de disciplinamento que vem de uma filosofia de vida institucional da qual o coach é o detentor. Não! O Coaching desperta, através de suas ferramentas, aquilo que já está dentro de nosso coachee, logo, o cuidado com a comunicação deve ser extremo, para não criarmos com nosso discurso, situações de confronto para com aquilo que o coachee acredita.

É claro que nosso conhecimento estará sempre a serviço da evolução de quem nos procura, no entanto, o ponto de vista que deve ser considerado é o do outro, é o seu universo. Por isso, a comunicação é circular e não monodirecional. Ela acontece na relação igualitária de dois interlocutores, e não de um detentor do saber e outro uma “tábula rasa” de conhecimento. Todo o saber do outro deve ser considerado, e suas experiências de vida honradas e valorizadas, logo, o nosso discurso como coaches deve evidenciar isso a todo momento.

Suas palavras podem ser a semente que gerará um broto, uma vida nova, um lampejo de ideia, ou pode ser a lâmina que corta, que ceifa, que abafa toda possibilidade de crescimento e desenvolvimento. Sua comunicação pode gerar a esperança e a humildade a partir do reconhecimento ou pode gerar a angústia e a descrença.

A sessão de Coaching se faz por meio da comunicação. A Psicologia já advertia seus profissionais sobre como conduzir a fala e a escuta numa relação de consultório. Aprendamos o efeito de nossas palavras e o efeito do desprezo pelo universo do outro para que possamos, por meio do nosso discurso, produzir positividades.

 

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