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Com o Zé em Harvard – O maior antídoto de todos é o que está no próprio veneno

Por: José Roberto Marques | Blog | 07 de maio de 2019

“Ser de Luz! Protagonizei um dos momentos mais importantes da minha carreira e da minha história. Um sonho que idealizei há 10 anos e foi materializado. Ministrei um Workshop na Brazil Conference em Harvard e você poderá acompanhar cada detalhe sobre os assuntos que compartilhei em artigos exclusivos aqui no meu blog!”


Você já parou para pensar sobre o porquê de existir alguma coisa muito atraente nos paradoxos? Muitos de nós vemos beleza quando Camões diz que o amor “é ferida que dói e não se sente”, nos sentimos mais fortes quando Caetano canta que “é proibido proibir” e vemos sentido quando Cecília Meireles escreve sobre a palavra liberdade: “não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Temos uma tendência — diga-se de passagem, muito útil — a categorizar as coisas e os fenômenos com os quais nos deparamos na vida. São muito famosas expressões tautológicas como “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”; elas sintetizam a lógica popular segundo a qual, se A é A, então não pode ser B. Esse tipo de raciocínio nos ajuda a diferenciar um cachorro de um gato, diferentemente de uma criança pequena que se refere a ambos como “au au”, por exemplo.

Não podemos dizer que a criança comete um erro completo. Além de haver certa semelhança física entre cachorro e gato (quatro patas, pelos, rabo etc.), há uma semelhança em relação ao papel que eles desempenham na vida das pessoas. O que parece existir é uma diferença na maneira de raciocinar entre adulto e criança. Ela tem as bordas entre as categorias menos rígidas, já que elas ainda estão se formando.

Uma das maneiras que os psicólogos encontraram para medir a criatividade de uma pessoa consiste em um teste simples: pede-se, por exemplo, para um grupo de pessoas escrever a maior quantidade de usos que conseguir pensar para um tijolo em um determinado tempo. Há um elemento de fluidez na quantidade de usos o testado consegue pensar e um elemento de originalidade, que é calculado comparando a distância dos usos mais comumente pensados e os que a pessoa sendo testada pensou; leva-se em consideração também a aplicabilidade dos usos. Quanto mais usos, maior a fluidez; quanto mais incomuns os usos, assumindo que sejam aplicáveis, maior a criatividade a originalidade.

Fluidez e originalidade, que são dois fatores importantíssimos da criatividade, relacionam-se muito fortemente com a habilidade que a pessoa tem de mover um dado objeto da categoria na qual comumente o inserimos para outra, isto é, a habilidade de tornar essas barreiras permeáveis, de passar por cima delas, de transpô-las. Para pensar em usar um tijolo como uma pedra-pomes, precisamos transpor o tijolo da categoria “materiais para construção” para a categoria “higiene pessoal”, por exemplo.

Parte do porquê de os paradoxos chamarem tanto nossa atenção é que eles fazem esse movimento de transposição de maneira explícita e poderosa, indo de um extremo a outro muito rapidamente. É uma maneira de enxergarmos significado para além de nossas barreiras costumeiras, que nos ajudam, mas também nos limitam. A ideia de que é possível mudar um objeto ou fenômeno de categoria voluntariamente abre várias possibilidades.

Se em um primeiro momento as coisas parecem intrinsecamente pertencentes às categorias nas quais as enxergamos, um paradoxo nos permite pensar que, talvez, isso não seja assim tão rígido; que talvez haja realmente a possibilidade de mudar algo, voluntariamente, da categoria “veneno” para a categoria “antídoto”, por exemplo.

Um exemplo prático: imaginemos uma pessoa que sofra de agorafobia. Ela relata um imenso medo de elevadores. Tratamento para ela: começar olhando fotos de elevadores, imaginando-se entrando em um elevador, conversando com pessoas sobre elevadores; depois, aproximar-se de um elevador, observá-lo em funcionamento, abrindo, fechando; aproximar-se, tocar nos botões e nas portas, eventualmente entrar nele e assim por diante. Esse tipo de tratamento, na maioria dos casos, se generaliza para outras partes da vida e ajuda a mesma pessoa, por exemplo, a ter menos medo de andar de ônibus ou de dirigir.

A questão não é entender que o mundo é um lugar seguro e que não há necessidade de ter medo. Todo mundo sabe que o mundo tem suas tragédias e que coisas péssimas acontecem o tempo todo. A questão é entender que você é mais corajoso do que pensa, que aguenta mais estresse e medo do que pensa, e que consegue lidar com o mundo apesar das tragédias a que todos nós estamos sujeitos.

Uma mudança de atitude diante do elevador fez com que aquela pessoa agorafóbica de nosso exemplo extraísse aquilo de que ela mais precisava — uma prova de sua própria coragem, de sua própria capacidade de prevalecer — da fonte de seu desespero. Há sabedoria na passagem em que os Cavaleiros da Távola Redonda decidem, individualmente, procurar pelo Santo Graal na Floresta Negra, cada um começando pelo ponto que parecesse mais escuro para ele, e onde parecesse não haver caminho.

Não é o caso de pensar, no entanto, que mudar de postura diante do que nos obstrui ou incapacita seja uma operação fácil. Muitas vezes, pelo contrário, pode ser doloroso e desnorteador; não é fácil modificar a maneira como estruturamos nosso pensamento em relação ao mundo, e as barreiras que utilizamos para manter as coisas e fenômenos dentro das categorias em que estão para nós podem ser partes de nós das quais não estamos dispostos a nos desfazer.

Uma boa metáfora para compreender isso: muitas florestas passam por queimadas sazonais. Quando pessoas, no intuito de preservá-las, tentaram impedir essas queimadas, perceberam que, devido ao acúmulo de madeira e outras substâncias mortas no solo, quando a queimada acontece, ela atinge temperaturas tão altas que prejudica o solo e o deixa infértil. Há inclusive algumas espécies de árvores que são resistentes à temperatura da queimada sazonal, mas não resistem à que se gera quando se impede a regularidade do ciclo. Outras espécies não começam seus processos reprodutivos a menos que haja uma queimada.

Pessoas, muitas vezes, constroem suas identidades — o que inclui as categorias por meio das quais interpretamos o mundo — a duras penas. Passam por situações que as fazem acreditar, sem espaço para dúvidas, naquilo que acreditam. O problema é que, com o passar do tempo, com a mudança do ambiente, em suma, por diversos motivos, partes constituintes das pessoas podem se tornar nocivas a elas mesmas, ou ao desenvolvimento que almejam para si mesmas. Nesses casos, é melhor deixar a madeira morta queimar sazonalmente, mantendo o ciclo; quanto mais se acumula matéria morta, mais severa será a queimada e maior a probabilidade de o solo se tornar infértil em consequência dela.

Esse tipo de fenômeno se manifesta das mais variadas formas; geralmente, quando aprendemos algo, precisamos deixar para trás o que achávamos que sabíamos, o que significa dispensar uma parte que nos constituía. Quando esse processo chega a seus extremos e atinge uma parte essencial do ser que aprende, muitas vezes ele escolhe não aprender e vive numa situação desconfortável, custosa, mentindo para si mesmo; quando ele aceita o aprendizado e deixa aquela parte que, embora prejudicial, lhe era essencial, temos a fênix, o renascer fortalecido das cinzas, o símbolo da superação.

Raul Seixas disse: “o caminho do verde é o cinzento”; a morte é parte da renovação. No veneno está o antídoto. Todos esses paradoxos são reflexos de nossa vida, da observação cuidadosa e sóbria dos processos naturais, muito além de serem frutos espirituosos da imaginação de alguém. Dos processos de adubação aos de aprendizagem, passando pela cadeia alimentar e pelas terapias, não há inconveniente nenhum em dizer que a vida brota da morte.

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