perguntas-coaching

As Perguntas Poderosas

Por: José Roberto Marques | Blog | 21 de março de 2019

A pergunta é a ferramenta mais poderosa do Coaching. Isso porque, as perguntas são as próprias respostas. Perguntas devem estimular a ação, gerar opções, criar comprometimento e propiciar autoconhecimento. Perguntas estão para o Coaching como a bola para uma partida de futebol, ambos são elementos fundamentais que fazem o jogo acontecer.

Engana-se quem pensa que todas as perguntas são meramente perguntas. Cada modalizador de pergunta leva o outro a refletir sobre algo. Isso é importante porque assim podemos usar uma atividade linguística que se faz automaticamente em nós com mais inteligência. Acho realmente incrível como uma simples pergunta pode mexer com as nossas crenças e colocar nosso conhecimento sobre nós mesmos na berlinda.

Tendo como base a maiêutica de Sócrates, a filosofia e metodologia Coaching tem como intenção obter o maior conhecimento e reflexão a partir da formulação de perguntas. Sócrates nada escreveu. Tudo que sabemos sobre seu pensamento e seus diálogos devemos a três personagens: Aristófanes, Xenofonte e Platão.

O primeiro desses escritores tratava Sócrates com sarcasmo e ironia, de forma que seus escritos tendem a tecer uma crítica muitas vezes cruel sobre o que o filósofo dizia. O segundo era discípulo e admirador de Sócrates, no entanto, não escrevia suas lições com base na filosofia e ensinamentos de Sócrates, mas ressalta a integridade de sua vida como cidadão e sua moral exemplar. Xenofonte narra isso em vários de seus trabalhos, e o faz de maneira simples, sem entrar em pormenores quanto às teorias Socráticas.

Já Platão, segundo Benoit (2006) considerava Sócrates como sendo o homem mais justo que ele conhecera. Ele escreveu muito sobre Sócrates sendo que, dos 29 diálogos de Platão, 27 falam de Sócrates e em quase todos ele é o personagem condutor da discussão.

Os primeiros estudos de Sócrates – ainda na sua adolescência – estavam ligados à fisiologia, na busca pela causa-efeito das condições da natureza humana. No entanto, ele não encontrou nas teorias fisiológicas boa parte das questões que ele nutria. Nesse período lhe chegou ao conhecimento a teoria de um filósofo chamado Anaxágoras, que acreditava que a inteligência ou o espírito (nous) seria o ordenador e causa de todas as coisas. Embora tenha, de início, se entusiasmado com tal teoria, logo começou a questionar a mesma, pois dizia que não podia ser um “espírito exterior” a causa de tudo.

Ocorre que a partir dessa última teoria à qual Sócrates teve conhecimento, ele começou a desenvolver sua tese sobre o “mundo das ideias”, em pouco tempo ele conseguiu a oportunidade de apresentar suas ideias aos filósofos Parmênides de Eléia e seu discípulo Zenão, que visitavam Atenas. Nessa época Sócrates tinha apenas 20 anos de idade.

Contudo, a explanação do jovem pensador não foi muito bem sucedida. Parmênides e Zenão, bastante mais experientes, sucumbiram Sócrates num interrogatório sobre diversas coisas, sobretudo sobre a impossibilidade da unificação da ideia do ser, o que iria contra a tese do mundo das ideias. No final, Sócrates se reconhece incapaz de explicar todos os conceitos relacionados ao mundo das ideias que ele mesmo havia proposto.

Esse episódio, segundo os relatos sobre a vida de Sócrates, fez com que ele passasse por dez anos de silenciamento. Ele estava convencido de que nada, de fato, sabia – quando surge a célebre frase “só sei que nada sei”.

Dez anos após o episódio fatídico do encontro com Parmênides, Sócrates tem um diálogo com a sacerdotisa Diotima, que lhe faz uma série de revelações. A partir daí o discurso de Sócrates amadurece e ele volta a confrontar sofistas e filósofos no intuito de empreender seus pensamentos no mundo da comunidade grega. Um desses confrontos ideológicos mais frutíferos foi com Alcebíades, do meio aristocrático ateniense. No diálogo com Alcibíades, Sócrates introduz um novo elemento no seu discurso, o “conhece-te a ti mesmo”. Sócrates julga necessária a busca pelo autoconhecimento já que, a partir dessa busca, o indivíduo culminará no conhecer sobre o que é de fato o “ser em si do homem” (Tada & Cazavechia, 2006).

Esse lugar tão interior do nosso ser que nem mesmo nós conhecemos é o que Sócrates concebe como alma. A partir desse entendimento, Sócrates conclui que “uma alma deve estar em contato com outra alma para que possa se conhecer,  pois é necessário algo externo a si próprio para que reflita aquilo que é de fato o seu ser”. Não se espante se isso lhe lembrar imediatamente o rapport de alma, pois é isso mesmo!

Mas a maiêutica surge um pouco depois, no diálogo com o jovem Teeteto, narrado por Platão. No texto que podemos conferir no artigo de Tada & Cazavechia (2006), Sócrates explica a Teeteto que sua mãe fora uma famosa parteira e que ele também praticava semelhante arte. A diferença principal entre os dois é que a mãe praticava o “parir do corpo”, ao passo que ele, “o da alma”. “Não que ele queria dizer que havia um nascer constante de novas almas a partir de outras, longe disso, para o filósofo, os frutos da alma são o saber, e é isso que ele pretende fazer, ajudar jovens a parir o saber que sai de sua alma, pois segundo Sócrates é na alma que reside todo o saber pertinente ao ser humano”.

Na perspectiva da maiêutica, ou seja, do “parir” do saber, entende se que este já está dentro do homem. O saber é um relembrar, é um trazer à tona aquilo que já está dentro. Mas Sócrates vai além na sua analogia: ele mostra a Teeteto que uma parteira tem que ter tido ao menos um parto na vida. Não há parteira que não tenha filhos. E isso se explica pelo fato de que é preciso ter passado por essa experiência para auxiliar outras pessoas.

É necessário que um mais experiente, alguém que já superou essa fase, ou que já tenha passado por essa fase, ajude uma outra pessoa. Dessa forma, o parir do saber se identifica muito com o parto da mulher. Um aprendiz deve ter um sábio que lhe conduza durante o processo de gestação de suas ideias até que elas venham à tona e sejam apresentadas aos outros. É por isso que todo coach deve antes ter sido coachee. Só depois de se ter passado pelo processo na posição de coachee é que nos tornamos suficientemente experientes para conduzir o processo dos demais.

Porém há uma diferença significativa justificada por Sócrates. A maiêutica exige uma avaliação, uma seleção das ideias que emergiram. É um parto que só dá à luz seres coerentes, o que não acontece no parto dos seres humanos. Toda criança que quer nascer, nascerá! À parteira cabe apenas conduzir esse momento e entregar o bebê à mãe. No parir das ideias, quem conduz o processo maiêutico deve avaliar se as ideias que estão sendo geradas pelo coachee são verdadeiras: “Nesse saber separar entre o que é ou não o verdadeiro fruto da alma que Sócrates conclui estar a parte mais árdua do trabalho de sua arte”.

O sistema de conhecimento gerado pela maiêutica socrática nos ajuda a refletir sobre toda a relação de aprendizado. No caso da educação formal, por exemplo, a educação socrática impele os professores a serem cada vez mais mediadores do saber do que mestres do saber. O saber não está em nós como figuras de uma ponta do processo, o saber está dentro de quem nos procura.

Acreditando na filosofia socrática, a partir dos pressupostos maiêuticos o Coaching trabalha para que o coach seja capaz de auxiliar o coachee no parto de suas próprias verdades, do seu próprio conhecimento, que já reside dentro dele. Nós, como coaches, não ensinamos nada a ninguém. Nosso papel consiste em trazer ao mundo o que está dentro das pessoas e avaliando, como orientadores, o que será importante ou não para o seu caminho.

Utilizamos as perguntas para fomentar a gestação de ideias que começam a sair das crostas da mente consciente e inconsciente. Nosso cérebro trabalha com gatilhos de informação imensuravelmente rápidos. Qualquer palavra que eu disser para você aqui, “geladeira”, por exemplo, aciona imediatamente uma memória, através de uma associação do cérebro. Sabendo disso, utilizamos perguntas que tenham o poder de mexer com a mente do coachee fazendo-o pensar, lembrar ou relembrar, refletir e muitas vezes sofrer.

Uma pergunta que causa mal-estar cumpriu, em princípio, o seu papel. Essa sensação de incômodo que algumas perguntas geram é a prova de que o ponto foi atingido e de que a reflexão foi gerada. É como tomar um remédio amargo, a cura vem depois do gosto pouco agradável que fica na boca.

Assim, via maiêutica socrática, fazemos parir os insights reveladores da verdade interior dos nossos coachees. Nosso trabalho consiste nisso e no que fazemos depois disso. Não ensinamos, mas direcionamos. Não julgamos, mas avaliamos e ponderamos a compreensão do outro. Milênios de filosofia aplicados à mais moderna forma de desenvolvimento pessoal e profissional do Homem.

 

Copyright:680112613 – https://www.shutterstock.com/pt/g/sdecoret

Deixe seu Comentário: